• Rubens Curi

O sistema Ego/Eu – Parte III – O Sistema Psicológico



Este é o terceiro artigo, de quatro, escrito por Robert.F. Steele, MA para o projeto The Immeansurable, do Krishnamurti Educational Center.


Lancei-me à tradução dos artigos por considera-los de grande valia para a investigação a que tenho me dedicado, a questão do sofrimento nas relações humanas. E também, pela forma esclarecedora com que o autor expõe e contextualiza a visão krishnamurtiana, fonte principal da minha pesquisa para ministrar a Oficina Sofrer ou não sofrer, eis a questão!


Para aqueles que desejem ler este primeiro artigo no original, segue o link:

https://theimmeasurable.org/the-ego-self-system-part-iii-the-psychological-system



Introdução


Vejo este artigo como sendo o núcleo da discussão. Aqui é delineado o ego e explorada a sua dinâmica. Fontes serão fornecidas, mas parte do material é original do autor. Fui conselheiro de toxicodependentes e tenho as qualificações acadêmicas exigidas. Sendo assim, sinto que minhas observações tem valor e são dignas de consideração. Além disso, posso estar em uma posição bastante singular, pois me dedico a estudar Krishnamurti há quase cinquenta anos. No entanto é preciso deixar absolutamente claro que estou apenas oferecendo elementos para reflexão e consideração sobre os ensinamentos de Krishnamurti. Neste artigo serão apresentadas várias de suas citações, mas apenas para dar ao leitor a chance de comparar posições e decidir por si mesmos se esse material é relevante ou útil para entender tais ensinamentos. Krishnamurti não falou sobre os detalhes das operações do ego, mas o identificou clara e continuamente como sendo a fonte profunda da incapacidade da humanidade de fazer as pazes consigo mesma e acabar com suas divisões e com a história de violência advindas dessas divisões. É nesse sentido que espero trazer luz ao funcionamento do sistema ego/eu, podendo ajudar na identificação com maior clareza e rapidez desse mecanismo psicológico interior, de forma que a luz necessária para a jornada na “terra sem caminhos” brilhe um pouco mais intensamente.



Um implante social


O senso de ego/eu começa no nascimento, nas interações do primeiro cuidador com o bebê. As primeiras reações que o bebê tem são reações emocionais simples. No entanto, a elaboração dessas reações começa rapidamente. O primeiro sorriso e uma crescente variedade emocional de reações se desenvolvem. Isso ocorre porque ao nascer as partes do cérebro responsáveis ​​pelas respostas emocionais estão muito mais desenvolvidas do que as funções cognitivas, que levam cerca de duas décadas para atingir a capacidade total (Opper & Ginsburg, 1987). Isso significa que nossas primeiras representações do eu, derivadas das interações, são capturadas em reações emocionais que não são acessíveis à interpretação verbal. Mais tarde, à medida que a cognição se desenvolve, as conexões se formam entre o neocórtex (o pensamento) e os sistemas límbicos (emotivos) que podem operar nos dois sentidos simultaneamente, tornando o pensamento e o sentimento ligados para sempre (Damasio, 2010). Isso coloca essas primeiras representações emocionais dentro do subconsciente. Tenha em mente que o material no subconsciente não está em hibernação e inativo. Ele é muito ativo e não é restringido por controles conscientes, e todos nós o temos. Daí se pode concluir que grande parte de quem pensamos e sentimos que somos reside e emana do subconsciente.


- Krishnamurti

Consciência é como um rio profundo, largo e de fluxo rápido. Na superfície, muitas coisas estão acontecendo e há muitas reflexões, mas isso obviamente não é o rio inteiro. O rio é uma coisa total, inclui o que está abaixo e também o que está acima. É o mesmo com a consciência, mas muito poucos de nós sabem o que está acontecendo abaixo. A maioria se satisfaz com o poder viver razoavelmente bem, com alguma segurança e um pouco de felicidade na superfície. Enquanto tivermos um pouco de comida e abrigo, um pequeno puja (ritual de oração), pequenos deuses e pequenas alegrias, nossa brincadeira na superfície é boa o suficiente para nós. Por estamos tão facilmente satisfeitos, nunca nos investigamos em nossas profundezas; e talvez as profundezas sejam mais fortes, mais poderosas, mais urgentes em suas demandas do que o que está acontecendo no topo. Portanto, há uma contradição entre o que está acontecendo na superfície e o que está acontecendo abaixo. A maioria de nós está ciente dessa contradição apenas quando há uma crise, porque antes disso a mente superficial se mantinha completamente ajustada ao ambiente.


A criança, então, absorve impressões de seu entorno e começa a formar conceitos emocionais desses ambientes, tanto físicos quanto sociais. Essas impressões também estão dando ao bebê, e à criança, o material para construir o sentido de si mesma. (Damasio, 2010) (Winnicott, 1965). Descrever emoções como conceitos pode parecer peculiar, mas é intencional e muito importante, pois o sistema límbico, como o sistema cognitivo no neocórtex, é um sistema de percepção, de identificação dos elementos de nosso mundo e de geração de respostas. Os conceitos emocionais são mantidos como representações, assim como os pensamentos, mas, em vez de nos dizer o que pensamos sobre o mundo, eles nos dizem como é a sensação. O sistema límbico é um sistema de aprendizagem que funcionou bem em criaturas vertebradas por centenas de milhões de anos antes da evolução gradual da cognição. Além disso, como o sistema límbico fica bem acima do tronco encefálico, que opera funções corporais básicas, ele tem grande controle sobre o corpo por meio das secreções glandulares. A sensação de bom ou ruim, amigável ou hostil, envia mensagens imediatas, preparando o corpo para enfrentar desafios, ameaças ou recompensas. O fato de ele ser um sistema inicial não significa que seja primitivo. O sistema límbico humano evoluiu junto com o surgimento de funções cognitivas de forma a se tornar um sistema altamente sensível e sutil, capaz de participar na criação dos nossos processos artísticos e filosóficos mais elevados. Sem ele, nada acontece. É o motivador (Narvaez & Schore, 2014). Remova o "e" de "emoção" (emotion) e você obtém a palavra "movimento" (motion). Ao perceber que temos dois sistemas diversos de percepção, mas conectados, é importante entender certas diferenças distintas entre eles. Uma boa analogia é ver a cognição como sendo digital. Considere uma cadeira verde. Verde, sim ou não. Cadeira, sim ou não, e assim por diante. Cognição tem apenas um nível de volume. O sistema de emoção é analógico. Quanto você gosta ou não gosta da cadeira verde? Quanto medo você experimenta quando está em situações assustadoras? Assim, a voz emocional pode ser muito suave, quase inaudível, ou tão intensa a ponto de anular totalmente a cognição. Isso ocorre porque a resposta emocional pode nos fazer avançar muito mais rapidamente do que a lenta cognição. Eu acho que entender isso é importante para compreender o ego, pois ele, como vimos, é baseado no medo. E o medo, mesmo como lembrança, é doloroso.


- Krishnamurti

Quero descobrir se o medo pode acabar - medo da morte, medo da sobrevivência, medo da dor física, medo de não falar em público, medo de perder minha esposa, meus filhos, emprego. Faz parte da minha vida, não estou brincando. É algo terrivelmente sério, porque quando existe medo há escuridão, um senso absoluto de não-ação, um tipo de paralisia acontece. E se você gosta de viver em uma paralisia, isso é com você, e brincar com as palavras e tentar ser inteligente, isso é com você, mas, se você é uma pessoa séria, a questão do medo é enorme, e implica no interrogar-se seriamente se é possível acabar com ele definitivamente. Então, você investiga, digamos, o que é o medo, como ele acontece. Eu vejo como ele obviamente vem de uma forma muito simples - o passado atravessando o presente e indo para o futuro. E esse é o movimento do pensamento ...


Agora estou sugerindo que você olhe para esse fato: que o pensamento, como movimento no tempo, pode ser a real causa do medo, de todos os medos, não apenas de um medo. É essa a verdade?


As primeiras impressões permanecem conosco e estão relacionadas à segurança, o que é comprovado pelo amor dos pais e a oferta de atenção e cuidado constantes. Se não for atendida, a criança não se desenvolve. Seu mundo é dominado pela ansiedade, uma forma de medo, e um estágio do desenvolvimento é perdido, criando uma deficiência psicológica vitalícia. Mas, se for atendida, o vertiginoso desenvolvimento do cérebro continua e a autoconsciência começa a se desenvolver rapidamente com uma base segura. Um ciclo de realimentação (feedback loop) começa a se formar onde o cérebro é capaz de refletir sobre a entrada sensorial, bem como sobre as formas de representações que começam a habitar a consciência. Isso prepara o cenário para a formação do eu/ego. Como foi visto no Artigo II desta série, a consciência requer um centro, mas que interaja, assim, o cérebro humano em desenvolvimento começa alimentar o centro adicionando atributos e descrições, e o centro passa a não ser mais apenas para mapeamento; agora se forma no centro um senso de eu.


- Krishnamurti

Estamos tentando descobrir o que é essa coisa que chamamos de eu, descobrir o centro do eu, do qual toda atividade parece brotar, pois, se não há transformação, a mera mudança na periferia, no exterior, na superfície, tem muito pouco significado. Então, eu quero descobrir o que é este centro, e se é possível realmente quebrá-lo, transformá-lo, destruí-lo. O que é o eu na maioria de nós? É um centro de desejo que se manifesta através de várias formas de continuidade, não é? É o desejo de ter mais, perpetuar a experiência, de se enriquecer através da aquisição, através de memórias, através de sensações, através de símbolos, através de nomes, através de palavras. Se você olhar bem de perto, não existe um eu permanente, exceto como memória, a memória do que eu fui, do que sou e do que deveria ser. É o desejo de mais, o desejo de maior conhecimento, maior experiência, o desejo de uma identidade contínua, identidade com o corpo, com a casa, com a terra, com ideias, com pessoas. Esse processo continua, não apenas no nível consciente, mas também nas camadas mais profundas e inconscientes da mente, e assim o eu, o centro do "mim", é sustentado e nutrido através do tempo.


Tudo o que acontece conosco se torna material para o “sistema de eu” (self-system). A criança é plenamente capaz de interpretar sinais sociais sutis. Expressões, linguagem corporal, o que é dito ou não dito e os tons de voz, todos dão à criança pistas sobre si mesma. E, sendo relativamente indefesa, ela, assim como o bebê, continua a precisar e ansiar profundamente por segurança, exceto que agora, com alguma autoconsciência, ela pode responder com muito mais criatividade para tentar obtê-la. A criança tenta agradar seu ambiente social, e se esse ambiente é amoroso e relativamente consistente ela encontra satisfação, que funciona como um feedback, contando para a criança que ela não é apenas segura, mas também aceitável e amável. A criança absorve isso integralmente, para se tornar parte do eu. Isso a faz desenvolver uma visão de si mesma como sendo adequada, como OK. (Winnicott, 1957). Se esse ambiente não é amigável ou adequado, a criança geralmente se culpa inconscientemente e começa a formar uma imagem de si mesma como inadequada, defeituosa ou incapaz de ser amada. Isso pode parecer estranho, mas na verdade não é, levando em consideração que a criança não tem o desenvolvimento cognitivo para avaliar o comportamento dos outros e, de qualquer maneira, tem pouco poder sobre o meio social. O único elemento disponível para tentar agradar a esse ambiente é assumir a culpa e a sensação de inadequação, na tentativa de encontrar um comportamento mais agradável e bem-sucedido em um ambiente disfuncional. O fracasso contínuo em agradar pode resultar num colapso, numa vida inteira de depressão ou, quando expresso externamente, em uma personalidade baseada na raiva e na rebeldia.


Nosso ambiente social vem, também, com regras e regulamentos, punições e recompensas. Cada camada da vida social que encontramos, à medida que nós nos desenvolvemos e expandimos para novos grupos sociais em nosso entorno, traz o conjunto de comportamentos adequados necessários. De fato, a conformidade com as regras e normas denota a associação e cria um sistema de recompensas e punições, que oferece oportunidade para o sucesso e o fracasso do indivíduo. Isso, por sua vez, cria hierarquia e julgamentos a respeito do sucesso, que por sua vez se torna material para a autoavaliação, que acrescenta novos atributos ao centro. É essa área de autoavaliação e julgamento que cria o ego, parte do sistema eu/ego. O ego é realmente a maneira como avaliamos e nos julgamos em relação às normas da família, clã e grupo. No começo da vida, para o bebê, esse era um sistema externo, mas é necessário internalizar isso, para ganhar segurança, tornando-a parte do sentido do eu. A criança aprende rapidamente a necessidade de se encaixar. À medida que crescemos, isso se torna uma rotina. Ao se ir ampliando a interação social, encontramo-nos em competição com os outros no grupo, todos disputando por reconhecimento e melhor espaço. (Horney, 1950). É tão bom ser valioso e superior, e esses recursos reforçam não apenas a permanência no grupo, mas, em função disso, a segurança. Os valiosos são mais protegidos. Além de que, à medida que os níveis se desenvolvem ao longo do tempo, devido à entrada em novas sociedades, surgem os confrontos entre as diferentes regras, o que provoca conflitos internos na psique. A doutrinação inicial em uma religião diz que você não deve matar. Mais tarde, ao se associar a uma organização militar lhe dizem que você deve matar. O treinamento anterior diz para dizer a verdade e ser honesto. A participação posterior em outras organizações pode dizer para deixar isso de lado, dando a entender que o fim justifica os meios.


- Krishnamurti

A crise atual é o resultado de valores errados - valores errados na relação do ser humano com a propriedade, com as pessoas e com as ideias. A expansão e predominância de valores motivados pelas sensações cria necessariamente o veneno do nacionalismo, das fronteiras econômicas, das soberanias governamentais e do espírito patriótico, todos excluindo a cooperação do ser humano com o ser humano em benefício do ser humano, e corrompendo seu relacionamento com as pessoas, que é a sociedade. E se o relacionamento do indivíduo com os outros estiver errado, a estrutura da sociedade está fadada ao colapso. Da mesma forma, em sua relação com as ideias, o ser humano justifica uma ideologia - seja da esquerda ou da direita, se os meios empregados são certos ou errados - a fim de alcançar um objetivo. Assim, desconfiança mútua, falta de boa vontade, a crença de que um fim correto pode ser alcançado por meios errados, o sacrifício do presente por um ideal futuro - todas essas são causas óbvias do presente desastre. É possível dar uma vista de olhos e ver como esse caos, essa degradação passou a existir. Certamente, tudo surge dos valores errados e da dependência à autoridade, à líderes, seja na vida diária, na escola mais simples ou na grande universidade. Líderes e autoridade são fatores que se deterioram em qualquer cultura.



Inculcando a Crença


Até agora temos estado no terreno da psicologia tradicional, mas podemos usar essa tribuna para ir além e examinar como o eu/ego assume superstições e crenças perigosas. Perceba que antes do nascimento do bebê os cérebros dos pais alcançaram pleno desenvolvimento e autoconsciência. E, em algum momento, essa autoconsciência tropeçou na natureza precária e imprevisível da existência, bem como na mortalidade inevitável. Eles se tornaram conscientes do nosso destino. Da necessidade de um senso de segurança perfeita e definitiva, que a criança tem, (que, para uma criança, é uma ilusão necessária e pode ser fornecida por famílias amorosas), o adulto amadurecido percebe que a segurança perfeita é impossível e um grande temor pode surgir. O que se pode fazer? Milhares de anos atrás os humanos inventaram cerimônias supersticiosas na tentativa de se enganar e pensar que havia uma maneira de controlar o incontrolável. As pessoas achavam que poderia funcionar. Pensavam que poderiam fazer chover e que a morte poderia não ser realmente uma morte. Mas ocorria também a percepção de que poderiam estar se enganando - havia uma imperfeição, a dúvida. Apenas uma crença inquestionável poderia manter todas as ilusões reunidas. Assim, o grupo teve que manter um fluxo constante e consistente de crenças, de uma geração para outra. Inculcar o medo na criança, que irá encontrar alívio via aceitação da crença. Uma vez em sintonia, os membros do grupo podiam experimentar a sensação de segurança, presente na ingenuidade da infância. Deus é o pai e precisamos temê-lo e obedecê-lo como fazíamos quando criança. Se você não obedecer a suas regras, você é mau e precisa de punição. Obedeça e terá a sua proteção. (Hood, 2009).


Desafortunadamente havia forasteiros e não crentes. Os descrentes eram definidos como maus e, portanto, suas dúvidas sobre as crenças de alguém poderiam abrir a porta do medo esmagador. Já abordamos isso, e a consequente divisão que causou na humanidade, criando ódio, animosidades e guerras sem fim.


- Krishnamurti

Sua crença em Deus, ou sua descrença em Deus, para mim, dá no mesmo, por não serem realidade. Se você estivesse realmente ciente da verdade, como você está ciente de uma flor, se você estivesse realmente consciente da verdade como está consciente do ar fresco ou da ausência dele, então, toda a sua vida, toda a sua conduta, todo o seu comportamento, suas próprias afeições, seus próprios pensamentos, seriam diferentes. Embora vocês se intitulem crentes ou descrentes, sua conduta não revela isso. Então, se você acredita em Deus ou não, é de pouca importância. É meramente uma ideia superficial imposta pelas circunstâncias e pelo ambiente, pelo medo, pela autoridade, pela imitação.


Portanto, quando você pergunta: "Você é crente? Você é ateu? Não posso responder categoricamente porque, para você, a crença é muito mais importante do que a realidade. Eu digo que há algo imenso, imensurável, insondável, que existe alguma inteligência suprema, mas que você não a pode descrever. Como você pode descrever o sabor do sal se você nunca o provou? E são as pessoas que nunca provaram sal, que nunca estão conscientes dessa imensidão em suas vidas, que começam a questionar se eu acredito ou se não acredito, porque a crença para eles é muito mais importante do que a realidade que eles podem descobrir caso vivam corretamente, caso vivam verdadeiramente; e como eles não querem viver verdadeiramente, pensam que a crença em Deus é algo essencial para ser verdadeiramente humano.



O eu/ego criou a nossa psicologia


Se resumirmos o que reunimos até agora, o que temos é a base da psicologia pessoal e de grupo. Um senso de eu, complementado com um ego-sistema de avaliação conforme normas grupais e culturais que originam as reações por parte do eu - um sistema de feedback: desempenho em função dos valores do grupo social, seguido por avaliação, seguido por julgamento do eu. Sendo o grupo e o indivíduo inseparáveis, os julgamentos fluem entre os membros e as diferenças de desempenho posicionam os indivíduos de acordo com a hierarquia. Em suma, os elementos do eu/ego determinam como e o que sentimos sobre nós mesmos, o que, direta ou indiretamente, gera muito de nossas reações psicológicas pessoais e cotidianas. Para o eu, as reações emocionais são consideradas muito mais importantes do que nossos pensamentos sobre nós mesmos. Nós tendemos a sentir que somos as nossas emoções e que temos os nossos pensamentos. A verdade real da neurociência é que nossas emoções são representações, assim como nossos pensamentos e imagens (Ginot & Schore, 2015). O que nós somos não é nenhum dos dois. Se percebermos isso, a defesa do eu através dos mecanismos psicológicos de defesa, mencionados no Artigo I, pode ser vista como uma maneira de tentar impedir que sentimentos ruins sobre nós mesmos sejam imputados a nós pelo nosso ambiente cultural. Nesse sentido, então, os mecanismos de defesa estão defendendo e perpetuando nossas normas culturais tendo-nos como representantes dessas normas. As reações psicológicas derivam daquilo com que nos identificamos e da necessidade de encontrar algum tipo de sucesso dentro do grupo. Se alguém do grupo estiver no topo, seu sucesso é sustentado por sua própria posição em relação ao grupo. No entanto, se alguém estiver em posição inferior, encontrar um grupo externo onde possa olhar de cima para baixo resolverá o problema. Daí a necessidade de sentimentos preconceituosos em relação a pessoas “de fora”. Infelizmente, a forma como os níveis sociais são criados implica que apenas alguns estão no topo. Estes estão no controle e têm o cuidado de limitar o número de membros no topo, inclusive entre os membros do próprio grupo. A maioria dos “competidores” que estão na rabeira, nas várias versões de performance, C, D e F, está condenada a sentir algo de ruim, se não terrível, especialmente em uma era laica, onde o sentido da crença religiosa de participação universal e igualitária foi corroído. Nos tempos medievais, o camponês podia ser tão crente como o rei e receber a mesma recompensa. Agora, em uma era materialista e secular, a desigualdade é dominante e o ego deve malograr o medo primordial de uma maneira diferente. (Rank, 1941).


- Krishnamurti

O fato é que o conteúdo da minha consciência é consciência. Agora, como eu procedo a partir de lá? Por favor, ouça. Como devo proceder para desvendá-la? Pegando parte por parte dos vários conteúdos e examiná-los a fim de rejeitá-los ou mantê-los? E quem é a entidade que está examinando? A entidade que é separada do que está sendo examinado é parte da minha consciência, que é o resultado da cultura na qual eu fui educado. É ela mesma que diz que você é diferente daquilo que você está vendo. Por exemplo, ela lhe vê como brâmane, portanto você deve abordar a vida a partir de uma determinada ideia tradicional. Então, um fato: o conteúdo da consciência é a consciência. O segundo fato: sendo assim, se existe uma entidade que examina cada fragmento desse conteúdo, então, esse examinador é parte do conteúdo. E esse examinador se separou do conteúdo por vários motivos psicológicos, tais como segurança, preservação, proteção, e ele também faz parte da cultura. Daí vem, como terceiro fato: ao eu examinar, estou me pregando uma peça. Estou me enganando. Você vê isso?



Ambição, vício e preocupação em tempos laicos


A moderna era industrial, científica e materialista, com seu foco no indivíduo, apresenta problemas novos e únicos para o sistema eu/ego. Por um lado, a cognição prospera, mas, por outro, a consciência do medo profundo associado à incerteza e à mortalidade não consegue encontrar uma solução para além do mundo. Ainda há crentes religiosos, mas eles estão cada vez mais cercados por pessoas sem fé, por crentes “meia boca” ou fundamentalistas, bem como uma mistura de crenças competindo entre si. Os sistemas de crença prosperam em monopólios, mas se sentem muito ameaçados por pontos de vista divergentes, pois estes suscitam dúvidas. No entanto, os tempos atuais oferecem oportunidades de ocultamento do medo indisponíveis e/ou inacessíveis em tempos passados, a não ser para os que fossem extremamente ricos. No mundo moderno, o sistema de hierarquia entra em ação com muito mais oportunidades para reivindicar status, aclamação e reconhecimento. O sucesso, ou o anseio por ele, gera ambição, e esta fomenta preocupações, que mantém os medos à distância devido à excitação das atividades. A preocupação assume muitas formas, e fica difícil separá-la do vício. Medo e dor impulsionam grandemente o vício, que assume muito mais formas do que geralmente se reconhece (Rank, 1941).


Existem substâncias bem conhecidas que geralmente proporcionam alívio imediato e temporário da dor. A dor corporal pode levar as pessoas ao vício, mas o uso clássico é para o alívio da dor psicológica, e esse tipo de dor está diretamente relacionada ao ego. As auto representações do indivíduo e os sistemas de valores/regras correspondentes estão em conflito perpétuo, de modo que a pessoa fica estagnada em dolorosos autojulgamentos e autoimagens. Esse tipo de configuração de eu/ego também provoca sentimentos profundos de vazio, solidão e busca de alguma forma de amor/companheirismo para preencher o vazio. É a chamada codependência, mas a cura não pode ser encontrada fora de si mesmo. A pessoa codependente procura receber o amor que uma criança recebe dos pais, mas esse tempo já se foi. Uma pergunta surge, no entanto, quando se pergunta por que as pessoas vitimizadas por isso acham tão difícil mudar, sendo a sua realidade pessoal tão dolorosa? A resposta consiste no fato de que abrir mão do senso de realidade existente, para trabalhar e reunir os elementos de um senso que seja mais confortável, pode ser confuso e assustador, especialmente no nível subconsciente. Imagine não ter como se colocar em relação aos outros, não ter como entender o que é o seu mundo social. Afinal, o bebê faz hora extra para conseguir isso, já que é tão importante. E, lembre-se da Parte I, sobre a congruência, onde os mundos interno e externo precisam se encaixar e reforçar um ao outro. Desmantelar o senso de eu significa também desmantelar o relacionamento com o mundo exterior. Acho que isso também implica que qualquer configuração de eu/ego, independentemente de quão confortável ou desconfortável seja, resistirá a ser questionada ou examinada de perto.


Existem muitas outras preocupações mais suaves, mas ainda assim viciantes, que são mais orientadas para a atividade, mas elas ainda dependem da provocação de mudanças químicas no cérebro, a fim de obstruir nas sinapses as localizações dos receptores de medo. A ativação da adrenalina é muitas vezes o caminho escolhido. Todos os esportes, tanto por participação quanto por visualização, funcionam dessa maneira. E, por identificação, na vitória, o espectador pode se ver como vencendo o inimigo. Afinal, parte do eu é algo que se utiliza da identificação. A vitória do inimigo se origina na necessidade de eliminar os descrentes e/ou as crenças opositoras. Vitórias não-letais por atos de terceiros também podem proporcionar distração do medo do ego. Os jogos de azar, o sexo e as muitas formas de atividades de consumo proporcionam diversão por meio do entusiasmo e podem se tornar tão perigosas para o bem-estar quanto o vício em substâncias químicas. A maioria das substâncias e produtos ditos não-ativos são legalizados e considerados essenciais para o capitalismo lucrativo. Elas são promovidas, e as crianças são influenciadas pela mídia desde a mais tenra idade, assim como também o são em contextos religiosos, sobre a transmissão da crença espiritual formal. Basicamente, sinto que temos uma sociedade de vício, cujas crenças centrais apoiam e promovem a sociedade de consumo.


- Krishnamurti

Existem mil e um hábitos, a maneira de escovar os dentes, pentear o cabelo, a maneira de ler, a maneira de andar. Um dos hábitos é querer se tornar famoso, para se tornar importante. Como a mente se torna consciente de todos esses hábitos? Será que é se conscientizando de um hábito de cada vez? Você sabe quanto tempo isso levaria? Eu poderia passar o resto dos meus dias assistindo cada hábito e ainda assim não conseguir resolvê-los. Eu vou aprender sobre isso, eu vou descobrir, eu não vou sair... Eu pergunto: será possível para a mente ver de uma só vez toda a rede de hábitos? Como é fazer isso?


Como pé possível ver um hábito, por exemplo, que estou girando meus dedos, e ver todos os outros hábitos ao mesmo tempo? Isso é possível, com um assunto tão pequeno? Eu sei que faço isso por causa da tensão. Eu não posso continuar com minha esposa, então desenvolvo esse hábito peculiar, ou faço isso porque estou nervoso, tímido, ou isso ou aquilo. Mas quero aprender sobre toda a rede de hábitos. Faço isso pouco a pouco, ou há uma maneira de olhar instantaneamente para toda essa rede?


Agora, muito do que acabei de criticar é, por si só, inofensivo ou pouco necessário. Há muita coisa no mundo moderno que melhorou imensamente a vida. O problema surge quando a necessidade de distração e preocupação, derivada das necessidades do ego, se torna um fator predominante. E, no que diz respeito às regras, não estou propondo que as regras da sociedade sejam todas ruins. As regras que organizam as funções eficientes da sociedade nos proporcionam segurança e qualidade de vida bastante aprimoradas, como as regras de trânsito, por exemplo. Mas quando as regras são estendidas para o reino da crença, que tenta distorcer a realidade, o sistema se torna sinistro. Regras que governam a forma como definimos e julgamos a nós mesmos e aos outros trazem problemas internos, tanto em relação ao nosso senso pessoal de valor e autoestima como no que diz respeito ao nosso relacionamento com os outros. Necessidades de dominação, controle e senso de superioridade são todos derivados do sistema eu/ego em busca por um senso de retidão e/ou desvio (Pinker, 1997).



Relacionamentos Conflituosos no Sistema Eu/Ego


Como descobrimos, o sistema do eu é um acúmulo de impressões do eu que se formam ao longo do tempo e a partir das interações com o ambiente social. Parece ter sido motivado não apenas pela necessidade de encontrar segurança no sentido de organização social, mas também por encontrar uma maneira de amenizar o choque pessoal da descoberta da existência de muitos perigos e ameaças à vida, que culminam na nossa morte. Culturas e sociedades oferecem vários remédios, indo das soluções antigas, como a crença religiosa de vida após a morte, até os entretenimentos sociais da atualidade. Mas, para obter acesso a essas soluções, é preciso adotar os padrões, códigos e regras correspondentes. Isso põe em movimento a dinâmica interativa do auto sistema, na forma de constante observação e avaliação quanto à performance e situação hierárquica. A vida se torna uma busca para avançar em ambas as posições, e isso requer conformidade e luta. Mas, o melhorar está repleto de problemas, já que o sistema do eu está cheio de conflito e contradição. A luta é criada ao projetar quem achamos que estamos enfrentando ou quem achamos que deveríamos ser. Há também possíveis lutas com potenciais submersos em nosso ser genético, que são ignorados quando se dá o ato de conformidade. As lutas também podem ocorrer quando sensibilidades fundamentais, geneticamente embasadas, entram em conflito com os valores e padrões do grupo (Milgram, 1974; Horney, 1950). O eu, sendo uma construção imaginária em uma busca sem esperança pela segurança perfeita, é também um sistema muito vulnerável a dúvidas e críticas, tanto de dentro quanto de fora. É facilmente ferido e insultado, gerando ciúmes ou inveja. Em conjunto, este é um sistema capaz de produzir reações psicológicas contínuas e possivelmente voláteis, especialmente reações emocionais hipócritas reveladoras de quem somos. Reações como essa são um enorme impulso do ego e uma afirmação de superioridade.


- Krishnamurti

Eu tenho uma imagem sobre mim mesmo: eu sou um grande homem, ou eu sou isso ou aquilo. E essa imagem foi criada desde a infância: você deve ser alguém - Júlio César, se possível, ou um grande santo, se possível, ou o alto executivo, ou um desses políticos. Você deve ser alguém. E gradualmente se constrói uma imagem sobre si mesmo - nobre ou ignóbil, insuficiente ou suficiente, existe essa imagem na maioria das pessoas. E quando você diz algo duro, sendo minha esposa, marido ou amigo ou vizinho, eu fico ferido, isto é, a imagem que eu criei sobre mim mesmo é ferida. Essa imagem sou eu. E quando digo que estou ferido, estou falando não apenas da imagem que sou, mas também do criador dessa imagem. Então não sou diferente da imagem que construí sobre mim mesmo. E quando há mágoa, é a imagem com a qual me identifiquei como eu que está ferida, por isso digo que estou ferido. E toda a sociedade, a estrutura social, moral, religiosa, está me ajudando a manter essa imagem. E enquanto eu tiver essa imagem, vou me machucar. Faça o que fizer, tente suprimi-la, fugir dela, analisá-la, ir a um psicanalista, e todo o resto, ela sempre permanecerá, pois tenho essa imagem sobre mim mesmo. Agora a questão é: será possível viver sem uma única imagem sequer? Ah, eis a verdadeira questão.



O sistema Eu/Ego em relação ao tempo


Despojado de complexidade, o eu é composto de visões aleatórias, incompletas, fragmentadas e tendenciosas, unidas por fragmentos de memória emocional e cognitiva. É característica do passado ressurgir na consciência para dominar e distorcer as percepções atuais. O ego, por outro lado, resulta do passado em forma de códigos, padrões e valores associados aos vários membros de um grupo, que são projetados no futuro como objetivos comportamentais. O sistema cria nosso sentido de passado e futuro, sendo que nenhum dos dois é real (ver artigo)*. Da mesma forma, e vindo da mesma fonte, o medo crônico é retido na memória e projetado no futuro como o que poderia ou irá acontecer conosco. Este, então, é o elemento que unifica o medo crônico com o sistema eu/ego e o tempo. Elemento este que considero esteja maravilhosamente captado na descoberta do Buda - velhice, doença e morte – e que se tornou sua motivação para renunciar a todas as diversões e privilégios de sua posição nobre e iniciar a jornada em busca do fim do sofrimento. Ele experimentou os caminhos tradicionais, mas, apenas ao perceber a inadequação destes é que entrou na terra sem caminhos, para encontrar sua resposta.


* The Challenge of Living in the Moment - https://theimmeasurable.org/the-challenge-of-living-in-the-moment


- Krishnamurti

Você é nada. Você pode ter seu nome e título, sua propriedade e conta bancária, você pode ter poder e ser famoso; mas, apesar de todas essas salvaguardas, você é como o nada. Você pode estar totalmente inconsciente desse vazio, desse nada, ou simplesmente não querer estar ciente disso; mas está lá, faça o que fizer para evitá-lo. Você pode tentar fugir dele de formas tortuosas, através de violência pessoal ou coletiva, através de culto individual ou coletivo, através do conhecimento ou entretenimento; mas, esteja você dormindo ou acordado, ele está sempre lá. Você poderá ver a sua relação com esse nada, e seus medos, apenas se ficar, e sem escolha, consciente de suas fugas. Não se relacionar com ele como sendo uma entidade individual e separada; você não é o observador a observar; sem você, o pensador, o observador, não existe. Você e o nada são um; você e o nada são um fenômeno só, não dois processos separados. Se você, o pensador, tem medo do nada e a aborda como algo contrário e oposto a você, então qualquer ação que você possa tomar em relação a ele deve inevitavelmente levar à ilusão e, assim, a mais conflito e miséria. Quando há a descoberta, a experiência desse nada como sendo você, então o medo - que só existe quando o pensador está separado de seus pensamentos, tentando estabelecer um relacionamento com eles - desaparece completamente.



Artigo por Robert F. Steele, MA

Robert é um conselheiro de saúde mental aposentado e estudante vitalício de Krishnamurti.



Referências:

Damasio, A., (2010).Self Comes to Mind: Constructing the Conscious Brain.

Ginot, E. & Schore, A. (2015). The Neuropsychology of the Unconscious: Integrating Brain and Mind in Psychotherapy.

Hood, S., (2009). SuperSense: How the Developing Brain Creates Supernatural Beliefs.

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© 2015 by Rubens Curi

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